
Produzido por João Moreira Salles e Kátia Lund, foi lançado em 1999. Mostra como vivem moradores, traficantes e policiais na favela de Santa Marta, no Rio de Janeiro. O bacana é que o documentário mostra bem a imparcialidade na exposição desse cotidiano, se baseando em entrevistas com moradores, traficantes e policiais e em dados obtidos junto à Polícia Militar ao longo de 2 anos (1997 a 1999). A ideia é analisar o tráfico, a polícia e a corrupção dentro dela e a posição do Estado com sua política de repressão.
Os moradores do Morro falam sobre a carência de políticas públicas como educação, saúde e de oportunidades. Quando são atendidos pelos traficantes do Morro em suas necessidades básicas, a confiança em quem os atende faz com que haja uma proteção mútua. Para os que conseguiam emprego, havia a comparação de um salário mínimo muito baixo para suprir as necessidades básicas e a possibilidade de ganhar duas vezes o valor no período de uma semana no tráfico de drogas. A falta de assistência do Estado em educação, saúde e oportunidades profissionais condiciona os jovens à criminalidade.
A opinião da moradora Dona Janete mostra o que pensam sobre o impacto do tráfico na favela: “Eles (policiais) andam pelos morros com medo porque a nova geração tem o espirito suicida, não querem saber se irão morrer ou matar, querem proteger a comunidade a qualquer custo. O lado negativo das armas é que os traficantes não querem saber se é morador ou não, se eles puderem matar e esquartejar para todos verem e servir de exemplo eles irão fazer, eles são capazes disso.” Em outro trecho um morador conta que antes do tráfico os policiais já entravam "metendo o pé nas portas" e hoje eles entram com mais cautela. Alguns do jovens que assistem a todo o heroísmo atribuído aos traficantes pela comunidade, decidem desde cedo seus destinos.
No início da década de 90 surge o Comando Vermelho com três finalidades: paz (dentro da cadeira), justiça social e liberdade (sair da presídio, mesmo que em fuga). A ideia era ajudar as comunidades à margem da sociedade e que sofrem com a ausência do Estado.
Deixadas estas lacunas abertas pelo Estado, cabe à polícia controlar a situação. Ganhando pouco mesmo colocando suas vidas em risco, alguns se corrompem com o crime, acobertando ações de traficantes, culminando em episódios violentos com fins trágicos. Grupos de traficantes também acabam sendo mortos justamente para que policiais não sejam descobertos em relação ao envolvimento com o crime. Importante ressaltar que não se trata de todos os policiais, mas que a corrupção de alguns dificulta muito o trabalho de contenção e controle.
Por este lado, conseguimos perceber que o Estado também não supre as necessidades da Polícia que é mal remunerada e mal equipada, precisando de melhor capacitação. Soma-se a isso um sistema prisional que não ressocializa o criminoso e o solta algum tempo depois, renovando o ciclo da criminalidade. Somente a polícia não resolve.
Alguns pontos fortes do documentário: o ex-chefe da Polícia Civil do Rio, Hélio Luz falando sobre a função da polícia de proteger a elite; o casal de moradores contando sobre quando policiais acham objetos de valor como DVD, por exemplo, mesmo com nota fiscal, recolhem afirmando que se é caro provavelmente é roubado; a escola de menores infratores; o final com contraste em os enterros de um policial e de um integrante do tráfico - nessa guerra todo mundo pode morrer.
O documentário é facilmente encontrado na internet, inclusive no Youtube. Deixo também a entrevista recente com Hélio Luz sobre a intervenção no Rio, onde ele aponta a classe média/alta como responsável pelo produto que é a favela: O problema do rio não são os bandidos são os mocinhos diz ex-chefe da polícia civil





