Eu tava lendo algumas curiosidades na internet e me deparei com essa de que o vestido de noiva ser branco é algo até recente, por volta de 1850, mais ou menos. Antes era de qualquer cor, normalmente escuro ou preto, mas podia ser vermelho, verde ou azul, desde que fosse bem "ostentação", que mostrasse que a família da noiva tinha posses. Casamento era negócio. E isso me lembrou uma conversa que tive com uma moça que me disse que casaria de vermelho e sua avó tinha ficado pasma com a ideia!
Na década de 30/40 o biquíni começava a ser usado por mulheres e pra muita gente foi um escândalo! Hoje usamos biquínis bem mais cavados e menores, não causando quase nenhum rebuliço. Segundo a reportagem do G1 de 2007 (clique aqui):
"O ex-presidente da República Jânio Quadros não ficou sete meses no poder (renunciou ao mandato), mas, durante o curto período em que governou o país, em 1961, ele chegou a proibir o uso de biquínis nas praias e até maiôs em concursos de beleza.
Antes, em 1957, quando era governador de São Paulo, Jânio já havia provocado polêmica com outra medida. Em fevereiro daquele ano, proibiu a execução de rock nos bailes no Estado de São Paulo.
Mas decisões desse tipo não são exclusivas dos políticos brasileiros. Em 2006, por exemplo, o prefeito de Paris, Bertrand Delanoë, publicou decreto proibindo os "trajes indecentes" nas "praias" às margens do rio Sena."
Outro exemplo de mudanças na sociedade ao longo do tempo é a posição dos membros de uma família. O modelo do homem provedor e da mulher dona de casa, ainda seguido em muitos lares até hoje, já não é a única forma de se administrar uma casa. Hoje não é estranho um homem compartilhar os serviços domésticos e a mulher trabalhar fora.
Algumas mudanças são naturais, outras frutos de lutas como o direito de voto das mulheres. Escândalo é hoje pensarmos que mulheres tinham suas opiniões negligenciadas e diminuídas há menos de 100 anos, historicamente considerado pouquíssimo tempo. Mas com este breve texto, questiono: será que tudo que hoje é escandalizado realmente carrega esse peso todo? O que há por trás dessas questões? Será que daqui 50 anos ainda estaremos discutindo legalização da maconha ou do aborto, educação inclusiva, discussão de gênero?
Eu já falei que adoro filme de terror ou horror? Então, assisti a este filme por este motivo, mas acabei me deparando com outra temática utilizada o tempo todo no filme - a luta de classes. Lá vem a Paula levando as coisas a sério demais. Não consegui evitar. O filme de Juliana Rojas e Marco Dutra é nacional (eu adoro filme nacional!). Dei uma breve pesquisada nesses dois e eles curtem mesmo umas experimentações em obras de horror.
Pra começo de conversa, luta de classes é a luta entre dominantes e dominados, segundo Marx. Segundo ele, a luta de classes move a história da humanidade, trazendo mudanças gradativas na sociedade. No filme, o casal de classe média Helena e Otávio passam por adaptações após Otávio perder seu emprego, ao mesmo tempo que Helena aluga um espaço para abrir um mercadinho. Eu já vou avisando que vai ter spoiler, então assiste primeiro e depois volta aqui pra eu ver se conseguimos pensar em coisas diferentes.
Várias coisas estranhas vão acontecendo: o mistério dos antigos donos, os vazamentos, o líquido preto, as infiltrações, o dente pontiagudo. O cadáver do monstro que ela achou atrás da parede e queimou depois. Em casa o ovo estragado, sei lá (último ovo e ela só tirou a parte com sangue com uma colher e deu continuidade na receita!!!). O que percebi foi que esses fatos geraram a preocupação apenas necessária para que ela investigasse e, assim, que houvesse uma rotina normal no mercado. Algumas vezes tive impressão de que o receio de um funcionário estar furtando itens da loja ou a demora dos consertos eram mais estressantes do que o mistério sobrenatural para Helena.
Questões sociais são bem retratadas em relação à mulher assumir o lugar de provedora da família, a procura de Otávio por emprego, a forma como a empregada é vista e tratada pela família, a relação patroa/empregados no mercado, e também quando o filme mostra a peça infantil de Vanessa (a filha do casal) sobre a Lei Áurea e todos os personagens negros eram crianças brancas com o rosto pintado de preto, típica escola de classe média-alta. Mas vamos por partes.
A relação Helena patroa e seus funcionários no mercado: no início ela parece gentil, delega ordens em bom tom e pergunta sobre como eles tem executado o serviço. Após ver um dos funcionários separando mercadoria vencida para levar consigo, o bicho pega. Ela não aceita a explicação, mesmo com a moça do caixa confirmando que nunca havia o visto levando algo ao fechar o mercado com ela. Helena então argumenta que mesmo vencidos, ela deveria ter sido consultada e ela decidiria seu fim. Ela, sem deixar uma nova oportunidade, o demite. Dali em diante instala câmeras de vigilância, questiona horários e fiscaliza bolsas dos funcionários ao irem embora. Até o marido dela diz pra ela pegar leve... Outra parte que mostra o interesse desmedido do empregador é quando ela muda de ideia sobre abrir o mercado no Carnaval. Ela não abriria e após os funcionários se organizarem, ela muda de ideia oferecendo folgas em outra ocasião. Um tempo depois o ex-funcionário volta ao mercado como cliente e gera uma paranoia em Helena que manda Gilda (funcionária do caixa) vigiá-lo.
Já em casa sua relação com a empregada Paula começa duvidosa. Paula é indicada por alguém de confiança e não possui experiência. Helena já vai mostrando a ela como tudo funciona em casa, até que Paula a interrompe e pergunta sobre pagamento. Já me vi nessa situação. E quando você pergunta sobre salário, o desconforto é notório, parece que você tá ali só pela grana e que estão te fazendo um favor em te dar chance de ter experiência. Eu até acho que muitas vezes o salário é baixo justamente por este tipo de pensamento. O trabalho dos outros sempre poderá ser diminuído. No caso ela ofereceu um salário mínimo no primeiro mês (de experiência) e a partir do segundo ela daria um auxílio transporte (pelo que entendi) como se fosse um puta aumento ou bônus irrecusável - a moça moraria no serviço. O que se pode pensar é que ela não gasta em aluguel, em comida, em nada. É uma "fortuna" com tudo que ela "ganha" - aguentando o mau-humor da família, precisando convite para assistir à TV até no feriado, deixando de sair em sua folga, pois a a mãe de Helena estava de visita e poderia "pegar mal". Helena argumenta sobre não assinar a carteira, pois sairia caro para ela e ela estava abrindo uma exceção, pra ela que não tinha experiência, por ser indicação. Paula aceita. Paula procura outra oportunidade enquanto trabalha para a família. Consegue ao fim do filme em um shopping e, com isso, seu primeiro registro em carteira.
Paralelo a isso, vemos o tempo todo Otávio deslocado em sua situação de desempregado, vendo sua esposa sendo agora a provedora. Procura emprego sem cessar e não consegue. Ele não pede dinheiro a ela para pagar algumas contas e na noite de Natal a luz é cortada. O casal fica estremecido e Otávio se sente humilhado com as palavras de Helena, mas aparentemente eles se resolvem. Em outro ponto ela repete as palavras duras quando desiste de viajar no feriado "porque alguém tem que trabalhar".
Sobre as partes do horror, achei que a história girou em volta de algo que já estava morto e enterrado, algo que já havia acontecido. O que acho (porque não fica explícito) é que os antigos donos sumiram após matar o irmão do dono que era um monstro (lobisomem, eu acho) e "enterrarem" na parede. O medo então, seria muito mais com as consequências dos problemas estruturais físicos causados por este monstro do que pelo monstro em si - reformas, gastos, assustar clientes. A questão, sendo abordada de uma forma mais simbólica, pode nos revelar um monstro que existe na estruturas sociais. Faz sentido? Fica aqui o trailer do filme pra vocês e comentem pra eu saber o que acharam do filme também.
Eu já havia assistido a um filme do Oswaldo Montenegro, chamado Solidões (falarei dele em outro post). Chorei como uma criança e me apaixonei por ele, virei fã. Há uma ou duas semanas atrás eu fui atrás de outras obras e assisti Léo e Bia, outro filme dele - roteiro, direção e trilha sonora. O cara é simplesmente foda. A história é ambientada em 1973 na cidade de Brasília e inspirada em fatos reais. De acordo com a minha pesquisa, o Léo é o próprio Oswaldo e a Marina, uma grande amiga e parceira de trabalho de muitos anos.
Quando assisti tive impressão de que cinema e teatro se misturavam. Cinco meses de ensaio, dez dias de filmagens, um estúdio e vários cenários mudados de forma simples e dinâmica. Eu não entendo muito de teatro, mas consigo enxergar a genialidade de como o filme foi feito.
O filme se passa em meio ao tempo de ditadura onde um grupo de jovens amigos se empenha em fazer e viver de arte. Se juntam num galpão para trabalhar cenas de uma peça escrita por Léo, fazem exercícios, exploram tudo de forma intensa. É empolgante, dá até vontade de ter um grupo assim e de fazer teatro. Cada personagem tem suas particularidades: a personalidade livre e sonhadora, sem muitas pretensões ao estilo carpe diem; a personalidade contestadora, quase pessimista e quase sempre sarcástica; a personalidade do idealista otimista e romântico; da politizada, livre e quer mudar o mundo; a mãe abusiva; a filha refém de sua criação. Inclusive percebi a mãe de Bia como a personificação da ditadura: "A ditadura é uma senhora que tem certeza absoluta." Tudo pela sua segurança, pelo seu bem, como se toda o excesso de vigilância e a repressão se justificasse. Por outro lado, também há referência a relacionamentos abusivos familiares.
A história não tem um final feliz como se espera entre Léo e Bia, mas temos que entender que a história é uma autobiografia, praticamente. E na vida real as coisas nem sempre saem como esperamos. Todos somos um pouco de cada personagem. Algumas falas eu até anotei de tanto que gostei: "Quem não consegue atacar o argumento, ataca o argumentador." e também "Parecer Rapunzel no alto da torre, mas sem jogar as tranças." Esta última sobre a pessoa que precisa ser salva, mas não permite possibilidades.
Fica aqui o link do site do Oswaldo Montenegro que fala sobre o filme: Filme Léo e Bia (2010) E abaixo o trailer do filme. Fico por aqui e peço que compartilhem suas opiniões sobre o filme, ok? Agora falta eu assistir ao Perfume da Memória, que também é do Oswaldo Montenegro. Esse cara é um artista completo!!!