Single de
maior sucesso do álbum de mesmo nome - Californication - foi lançado em 2000.
Fala sobre o lado obscuro de Hollywood e a indústria cinematográfica, a ilusão
vendida através de corpos esculpidos por plásticas e apresentados para consumo
de forma fútil e sexual. Menciona de forma sutil várias figuras do mundo
hollywoodiano, alguns com finais trágicos. Vários trechos mostram como a
indústria do entretenimento consegue vender o glamour de uma vida vivida
intensamente ao mesmo tempo que se aproveita dos holofotes quando as
consequências se tornam trágicas.
O trecho
"First born unicorn / Hard core soft porn" (Unicórnio primogênito /
Pornô suave explícito) faz menção à trágica história de Dorothy Stratten. E
quem foi ela?
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| Dorothy Stratten |
Dorothy
Stratten (Dorothy Ruth Hoogstraten) era canadense, nascida em Vancouver em 28
de fevereiro de 1960, descendente de holandeses, mais velha de três irmãos
(John por parte de mãe e pai e Louise, por parte de mãe através de seu segundo
casamento, 8 anos mais nova). Quando estava com 17 anos, estudava e trabalhava
como garçonete para ajudar em casa. Foi em seu trabalho que conheceu Paul
Snider, 9 anos mais velho que ela, promotor de festas e cafetão. Ambicioso,
focava em um futuro em meio ao brilho de Hollywood, à fama e ao sucesso.
Paul viu em
Dorothy sua passagem para o sucesso, atraindo-a para perto de si, para que
pudesse atuar como seu agente no meio artístico. Dorothy e Paul estavam, em pouco tempo, namorando.
Todos os
anos a revista Playboy procurava por uma nova modelo para ser a estrela do ano,
oferecendo prêmio em dinheiro para quem que descobrisse o novo rosto.
Paul Snider agarrou a oportunidade e, após não ficar satisfeito com as fotos de
um primeiro fotógrafo, procurou um mais próximo da revista - Ken Honey - que
não topou fotografá-la nua, pois Dorothy era menor de idade. Como a mãe da
garota não aceitou, Paul falsificou sua assinatura e levou a autorização a Ken
Honey.
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| Dorothy e Paul Snider |
Com as fotos
aprovadas pela revista, o fotógrafo foi premiado em dinheiro e Dorothy foi
convidada para ir à Los Angeles para um teste diretamente com a revista. Foi
sozinha, deslumbrando-se com tudo que via. Voltou à Vancouver e, poucos dias
depois, foi chamada novamente para mais testes. Novamente, Paul Snider não
estava incluso no convite. Dorothy conseguiu ficar entre as finalistas, não foi
a coelhinha do ano, mas conseguiu ser a capa de agosto de 1979. O motivo foi
que ela era ainda jovem demais e muito sofisticada diante das câmeras, sendo
aguardado o momento certo para que ela tivesse todos os holofotes somente para
si. Enquanto isso, Paul Snider também pediu para ser fotografado, pois também
desejava uma carreira de sucesso em Los Angeles.
Hugh Hefner,
dono da revista logo se afeiçoou à jovem, tornando-se seu protetor, trazendo-a
para frequentar as festas em sua mansão, apresentando grandes nomes para que
ela se tornasse uma grande estrela, por seu jeito doce e inocente, sua beleza
sem defeitos e seu talento para atuar.
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| Dorothy e Hugh Hefner - dono da Playboy |
Dorothy e
Paul se mudaram de vez para Los Angeles, onde moraram juntos com um amigo
médico que mal ficava em casa. Ela trabalhava como coelhinha no Playboy Club,
mesmo bairro onde ficavam os estúdios da 20th Century Fox. Paul a controlava o
quanto podia, sempre de forma possessiva, movido por ciúmes e medo de perder
sua chance de ascensão ao sucesso. Todos percebiam. Em 1979 Dorothy e Paul se casaram e em 1980 foi escolhida - a primeira canadense - a Playmate of the Year.
Dali em diante, tornou-se uma celebridade. Sobre sua decisão em aceitar o
pedido de casamento de Paul Snider, as opiniões se dividem: uns acreditam que
ela realmente o amava, outros que aceitou pois se sentia em dívida pelo que ela
acreditava que ele tinha feito por ela, e ainda que foi a saída mais fácil por
conta de ainda ser menor de idade e poder ter permissão para seguir a carreira
(ela ainda tinha 18 anos e a maioridade era conquistada aos 19).
Em mais ou
menos um ano, Dorothy conseguiu papéis sem muita importância, mas apareceu o
suficiente para ser notada com críticas favoráveis. Seu carisma conquistava a
todos. Ganhou destaque na Playboy, sendo enviada várias vezes para representar
a revista em muitos eventos pelo país. Snider não era bem-vindo ao meio onde
estava Dorothy, especialmente por Hefner, que o via como um aproveitador.
Inclusive a aconselhou sobre não se casar com Snider, sempre procurando cuidar de Dorothy com um carinho paternal. Aliás, Dorothy era tratada por Hefner de forma diferenciada, já
que normalmente ele tinha relacionamentos amorosos com as outras coelhinhas.
Dorothy começou a ficar cercada por amigos, profissionais do cinema e da
indústria do entretenimento, afastando-a cada vez mais de Paul Snider, a ponto
de suas opiniões e suas tentativas de controle financeiro não serem mais
levadas em conta. Esta situação ficou mais evidente quando Hefner contratou uma
equipe para cuidar da vida profissional de Dorothy, sendo colocado totalmente
de lado. Dorothy chegou a pedir para que voltassem ao Canadá, pois a brigas
estavam se tornando mais frequentes e sérias. Paul jamais se afastaria de sua
obsessão por fama e sucesso em Hollywood.
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| Dorothy e Peter Bogdanovich |
Em uma das
festas da mansão, Dorothy conheceu o cineasta Peter Bogdanovich, um dos mais
importantes diretores de Hollywood. Tinha transformado várias modelos em
estrelas do cinema, chegando até a casar com algumas delas. Uma delas foi
Cybill Shepherd. Encantado com Dorothy, Peter a convidou para duas sessões de
leitura de texto em sua casa junto com Davis Wilder, seu novo agente. Logo
surgiu o convite para um papel como coadjuvante em seu filme They All Laughed,
convite este que ela aceitou, tendo como oportunidade de trabalhar ao lado de
estrelas como Audrey Hepburn.
O casamento
de Dorothy e Paul já estava estremecido, pois ele vivia à sombra de Dorothy,
completamente obcecado por ter a melhor vida possível e, após algumas
tentativas frustradas, sua maior fonte de renda ainda era sua esposa. Dorothy,
por outro lado, não sabia como se afastar de Paul, temendo parecer ingrata,
pois apesar de tudo, tinha um grande carinho por ele.
Dorothy foi
à Nova York gravar o filme, deixando em Los Angeles seu então esposo, Paul
Snider, que insistentemente tentou acompanhá-la. Porém, não lhe foi permitida a
entrada nos sets de filmagem. Seu contato com Dorothy também começou a ficar
cada vez mais difícil, até que por ela mesma soube que o divórcio aconteceria,
já que Dorothy e Paul Bogndanovich havia se apaixonado e decidiram que ficariam
juntos.
Dorothy
Stratten voltou para Los Angeles, logo indo morar com Peter Bogdanovich. Mal
voltou e já foi enviada para o Texas representando a revista Playboy.
Chegou a ser convidada para interpretar Marilyn Monroe por um dos amigos da
falecida estrela (Larry Schiller) e cogitada para substituir Shelley Hack na
série As Panteras. Dorothy recusou por ainda estar envolvida com o filme de
Bogdanovich, também aconselhada por seu agente que pensava em vôos mais altos.
Paul Snider
se vê perdido sem seu casamento com uma estrela e sem controle sobre a carreira
de Dorothy. Além de tudo, não havia conseguido o prestígio que imaginava ter
quando se mudou para Los Angeles. Tentou processar Bogdanovich o acusando por
seduzir Dorothy e fazê-la romper contrato de casamento e gestão com Snider.
Descobriu uma modelo de 17 anos - Patty - que era tão linda quanto Dorothy,
mas Paul a fazia se vestir e fazer tudo como Dorothy, até que ofereceu a nova
protegida à Playboy sem receber nenhuma resposta positiva.
Enquanto
isso, Dorothy não conseguia se sentir plenamente feliz com o sucesso, tentando lidar com o remorso por sentir que havia abandonado o homem que havia
conseguido abrir as portas para ela, mesmo que com intenções egoístas.
Conversou várias vezes com Snider por telefone, não escondendo que sempre
sentiria ternura em relação a ele. Chegaram a se encontrar para tratar do
divórcio, mas Snider encaminhou o encontro para uma calorosa discussão, após esperar por uma reconciliação. Assim, Dorothy propôs um acordo
financeiro para que ela pudesse viver em paz com quem estava apaixonada -
Bogdanovich.
Pela
primeira vez, Paul Snider comprou uma arma (uma espingarda Mossberg calibre
12). Em 14 de agosto de 1980, Dorothy estava ainda morando na mansão de
Bogdanovich e estava com sua irmã mais nova a passeio em Los Angeles. Após reuniões com
agentes e advogados, Dorothy combinou de sair mais tarde com sua irmã e saiu
novamente, indo à casa onde antes havia morado com Paul para acertar detalhes
do divórcio, acertar um acordo financeiro e pegar coisas suas que ainda estavam
na antiga casa. Sua irmã Louise contou ao programa E! True Hollywood Story que
ela havia prometido voltar da casa de Paul Snider até às 2 horas da tarde e
pediu que Louise não comentasse com ninguém. Ao mesmo tempo que Patty saía da
casa de Paul a pedido dele por privacidade, pedindo que ela ligasse a partir
das 3 horas da tarde e aceitando os conselhos da nova parceira de trabalho, que
havia dito a ele que não haveria como fazer alguém ficar ao seu lado ou amá-lo sem
que fosse naturalmente.
O primeiro
sinal de que algo estava errado foi o atraso de Dorothy ao encontro com sua
irmã. Patty também ligou para Paul como combinado e ninguém atendeu. Às 5 horas
da tarde, Dorothy tinha uma sessão de fotos e também não apareceu. Patty volta
à casa por volta das 6 horas da tarde e vê copos com bebida e a bolsa de
Dorothy na sala, o que a fez pensar que talvez estivessem no quarto, com a
possibilidade do plano de reconquista de Paul ter dado certo. Meia hora depois
Patty saiu novamente para jantar com uma amiga. Uma hora depois, já às 7 e meia
da noite, o Dr. Stephen Kushner (que morava com eles) chegou em casa. Por volta
das 8 horas, Patty volta pra casa e assiste à TV junto com o Stephen. Eles
acreditavam que Paul e Dorothy haviam se reconciliado e estavam juntos no
quarto. Por volta das 10 horas da noite, sua irmã Louise já estava apavorada
com a falta de notícias de Dorothy, ao mesmo tempo que estava insegura em
contar algo para Peter Bogdanovich, pois a irmã havia pedido que não contasse
nada. Mesmo assim contou para Peter, que não pareceu nada feliz com a ideia de
sua companheira ter passado o dia com seu ex-marido. Peter ligou para Paul, sem
resposta.
Por volta
das 11 horas, Patty e Stephen foram checar se havia algo errado, pois não havia
nenhum sinal de alguém em casa além deles mesmos durante todo o tempo. Quando Stephen chegou
ao quarto, bateu algumas vezes. Sem obter resposta, abriu a porta. O que ambos
viram foram dois corpos nus em poças de sangue. Paul estava caído no chão por cima de sua arma, indicando a possibilidade de suicídio após homicídio. Stephen Kushner ligou para a polícia
imediatamente.
Dorothy
recebeu um tiro em seu rosto que o desfigurou completamente. A polícia acredita
que houve um intervalo de aproximadamente meia hora até Snider puxar o gatilho
contra si mesmo, suicidando-se. Algumas fontes dizem que Dorothy foi também
estuprada, provavelmente após estar morta, e que haviam formigas sobre os
corpos, atraídas pelo sangue. Apenas dois anos após o sua mudança para Los
Angeles, Dorothy era brutalmente assassinada.
Dorothy
Stratten foi cremada em Los Angeles e Paul Snider foi enterrado em uma
sepultura simples em Vancouver. Sua irmã só ficou sabendo da morte de Dorothy
no dia de seu funeral, em 22 de agosto de 1980. Após o funeral, a família de
Snider pedia metade dos bens de Dorothy, já que o divórcio ainda não havia sido
resolvido. A mãe de Dorothy estava tão devastada com a morte da filha que já
não fazia questão de nada material, não querendo brigar por dinheiro deixado
como herança. Peter
Bogdanovich ficou devastado com a tragédia, sentindo-se culpado. Retirou-se dos
holofotes para escrever o livro sobre sua relação com Dorothy - O Assassinato
do Unicórnio. Unicórnio era como Peter chamada Dorothy, carinhosamente. Daí a referência na música Californication, da banda Red Hot Chilli Peppers. Bogdanovich acabou
se responsabilizando financeiramente pela família de Dorothy Stratten, pagando
toda a educação da irmã mais nova, na época com 14 anos, assim como aulas de
interpretação e modelagem. Em 1988, Peter com 49 anos e Louise com 20 anos,
casaram-se e ficaram juntos por treze anos.
Em 1981, um
filme contando sua história foi realizado - Death of a Centerfold: The Dorothy
Stratten Story, passado pela NBC. Outro filme foi feito mais tarde, em 1983,
Star 80 (o nome dado por Paul Snider à Mercedes 450 comprada por ele em
homenagem à Dorothy, trocando a placa do carro). O filme foi baseado no artigo
premiado escrito pela jornalista Teresa Carpenter - The Death of a Playmate. O
quarto do assassinato foi usado para as gravações.
Sobre o
filme estrelado por Dorothy, Bogdanovich conseguiu os direitos sobre os
negativos, exibindo-o apenas para um seleto grupo. O filme já estava com sua
publicidade negativada por conta da tragédia e ainda a crítica feita por quem o assistiu não foi das melhores, deixando um grande prejuízo
para o diretor.
Outra canção
em homenagem à Dorothy Stratten foi feita por Bryan Adams - The Best Was Yet To
Come, do álbum Cuts Like A Knife, regravada posteriormente em 1990 por Laura
Branigan.




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