quinta-feira, 18 de julho de 2019

Resenha - O Amor nos Tempos do Cólera - Livro e Filme

Primeira semana após sair do trabalho e já arrumei o que fazer. Acabei fazendo uma postagem no Instagram e no Facebook sobre profissões antigas, começando com a profissão de telegrafista. Então pensei: queria assistir a um filme que tivesse um telegrafista. Pesquisei brevemente e achei a obra baseada no livro. Escolhi ler primeiro e em seguida assistir ao filme. A obra escolhida foi O Amor nos Tempos do Cólera, de Gabriel García Márquez. Que autor! Como eu não li nada dele antes? Bem, me dispus a mudar essa situação após ler este livro em três dias. 

A história se passa na Colômbia no fim do século XIX em meio ao cenário de guerras civis e e epidemia de cólera. Interessante foi que, ao ler o título do livro, eu pensei que a história seria bem romântica, uma história de amor apesar do cólera ou do que cólera também representa - raiva. Porém, a minha visão foi mudando conforme eu lia. 



Gabriel García Márquez
Neste cenário, conhecemos os personagens principais: Florentino Ariza, Fermina Daza e Juvenal Urbino. Florentino, com 18 anos trabalhava como aprendiz de telegrafista nos correios e, ao entregar um telegrama ao pai de Fermina, a vê pela primeira vez e se apaixona perdidamente por Fermina Daza, ainda com seus 13 anos e alheia aos sentimentos do coração. Cada um com sua intensidade (que desde o início não era a mesma) começaram a se corresponder durante anos, inclusive durante o período que o pai dela a leva embora da cidade para ficar longe do rapaz, pois os planos de casamento para ela incluíam um rapaz de família tradicional. Florentino, apesar de ser aprendiz de uma profissão bem vista na época, era filho de mãe solteira e fruto de caso extraconjugal de seu pai - que havia falecido quando o garoto tinha 10 anos. Durante o tempo de reclusão, Fermina fica com suas primas e estreita sua amizade com elas, em especial Hildebranda, esta que era mais velha e bem mais atrevida. Seu pai, acreditando que Fermina havia esquecido Florentino, retorna à cidade com a moça que agora já tinha 17 anos. Florentino descobre, a encontra na feira e é ali que tudo muda: de frente para seu pretendente, descobre que tudo não passou de ilusão e pede para que ele esqueça tudo. Ele adoece, não entende o que houve, sua mãe chega a pensar que ele havia adoecido por cólera. A doença - isso mesmo - era amor. 

Logo Fermina conhece o Doutor Juvenal Urbino (se não me engano, 8 anos mais velho que ela), quando ele é chamado para uma consulta de emergência. Todos suspeitavam de que Fermina havia contraído a doença maldita. Porém, a enfermidade era uma simples infecção intestinal. O pai, impressionado com suas raízes tradicionais na sociedade e sua carreira bem-sucedida na medicina, iniciou investidas para que Juvenal Urbino começasse a cortejar Fermina Daza. Para não contar toda a história (acreditem, não soltei nada além do início), apenas acrescento sobre o que se apóia todo o romance: a amor de Florentino por Fermina, que aguarda pacientemente a morte de seu então esposo, para que possa viver seu grande amor.

Vamos para minhas impressões! Eu fiquei com muita pena de Florentino Ariza quando ele sofreu o golpe de Fermina. Ela alimentou sentimentos, promessas e planos para, depois de cinco anos, chegar à conclusão de que era apenas ilusão. Porém, entendi muito bem Fermina. Tudo é muito novo e confuso na adolescência, e intenso também! Com a dificuldade dos encontros e da concretização daqueles planos de casamento por ser proibido, as ideias de amor acima de tudo só mexeram com a cabecinha dela. Ela e Juvenal se casam, ambos conscientes de que ainda não havia amor, porém a paixão havia sido alimentada e durou algum tempo. Viveram um casamento de paz por 50 anos (tudo isso está no primeiro capítulo, acalmem-se!) A confusão dos sentimentos retorna: era amor ou era comodidade pelas normas sociais? Teria ela sido mais feliz com Florentino? Após a morte do esposo (não contarei como morreu), estava descobrindo o amor desmaiado por Florentino ou seria carência? Ou novidade?

Já Florentino encontra uma forma de viver este amor de forma menos dolorosa, anotando cada caso seu, cada mulher com quem dormia. Escrevia sobre o amor, vivia o amor por Fermina em todos seus detalhes. A questão é: está certo viver uma vida inteira em função de um sentimento que não se sabe se será correspondido, esperando pacientemente a morte de alguém para que um espaço se abra, ainda que incerto? Em um momento ele vê o casal já idoso e fica um pouco inseguro quando percebe que não há como ter certeza se será o esposo de Fermina que morrerá primeiro e não Fermina. Ele já está idoso quando percebe e eu me angustiei: imaginem, após tantos anos, se dar conta de que tudo poderia ter sido em vão! Mas Florentino apenas se amedrontou com a ideia de perder Fermina de vez, nunca pensou no desgaste de sua vida por este amor nem pela incerteza de ainda conseguir algo dela. Alguns podem chamar isso de amor verdadeiro em suas visões românticas, porém não consigo ver assim. Não consigo achar saudável alimentar sentimentos que podem te adoecer ao longo da vida e te impedir, por uma crença limitante do amor, de viver com outras pessoas de forma mais intensa e de, talvez, construir algo. 

Em duas ocasiões fiquem muito, mas muito indignada com Florentino, uma relacionada a uma amante que faleceu por sua culpa e ele se preocupou muito mais com a possibilidade de seu nome ser citado e por quê? Porque Fermina poderia ler o jornal e descobrir que ele não havia sido fiel a ela!!! Leiam o livro, "apreciem" os detalhes, tirem suas conclusões e compartilhem comigo. A outra parte foi quando, aos 70 e poucos anos, ele vira tutor de uma menina de 11 anos chamada America, que aos 13 vira amante dele. Quando vocês lerem o livro, notarão que suas intenções não podiam ser moralmente aceitas nem para a época! Não falarei de detalhes, mas este caso tem impacto no final do livro e por isso não darei mais detalhes. Apenas digo que não consegui sentir o romantismo do final, visto que tudo que é podre e triste aparece em meio ao que deveria ser o final romântico. 

Sobre Juvenal Urbino, eu simpatizei com ele. Um homem honesto com seus valores, consciente dos problemas do matrimônio, e que levava muito a sério sua profissão.

Vale a pena comparar o livro com o filme que, apesar de ser fiel a muitas falas, por exemplo, por outro lado ferra com o desfecho, deixa passar em branco detalhes importantes e, ainda, deixam a impressão de que America não é uma menor de idade, só pra citar - o que acho bem ruim, pois no livro nos mostra um lado sombrio de Florentino que o filme deixa passar batido. Outra questão é que, apesar dos atores serem magníficos e o cenário muito real, a caracterização e as falas (em inglês com sotaque latino) fazem com que as personagens fiquem caricatas. Assim como alguns personagens são trocados à medida que envelhecem, outros só são caracterizados de forma diferente e muito fora da realidade. Fermina tem 72 anos e praticamente não tem rugas, apesar uma leve flacidez da pele e cabelos brancos. Como pontos positivos eu coloco Fernanda Montenegro, que interpretou a mãe de Florentino, e a trilha sonora, composta e cantada por Shakira - sou fã!

Seu eu puder dar mais uma dica: leiam o livro primeiro, o filme assistam depois.

Para quem se interessar em comprar o livro:
Livraria da Travessa: http://oferta.vc/v2/1995599a112

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Pode comentar =)

Dicas de Filmes sobre o Egito

OS SEGREDOS DE SAQQARA Título Original: Secrets os the Saqqara Tomb Ano: 2020 Direção: James Tovell Duração: 113 min Classificação: 14 anos...